A maconha e os males de uma militância sem tato

Publicado por Fábio Andrade em: 21/set/16


Imagina que você acabou de chegar no bar onde seu pai toma umas e, sem contextualizar, soltou um “a solução para o problema com as drogas é liberar a maconha e acabar com a polícia militar”. Na sua cabecinha de universitário esquerdista isso pode fazer todo o sentido, mas já tentou se colocar no lugar do cidadão que ouve isso? Ele não acha menos que absurdo, meu querido, garanto.

Basta pensar no tipo de informação ele anda recebendo e ligar os pontos: maconha mata. A polícia combate a maconha. Na cabeça de qualquer cidadão médio, você quer liberar algo que mata e quer acabar com a instituição que combate esse algo que mata. Rapaz, ele deve te achar uma pessoa bem PAIA. Aliás, ele tá certo: cê é um pouquinho paia mesmo.

Personagem do filme Todo Mundo em Pânico, interpretado por Keenen Ivory Wayans. Tem pele negra e um bigode ralo. Cabelo estilo 'black power' e expressão de extremo espanto, com a boca bem aberta. Está em um cômodo pequeno com prateleiras cheias de bagunça. Veste preto sobre uma camisa branca e usa colar prateado.

Você, estereotipado e indignado, questionando o porquê de eu dizer que você é paia.

Vamos tentar colocar algumas questões, pra não ter desentendimento. Primeiro vamos considerar que você talvez use um dos argumentos mais desonestos do mundo pra defender o uso da erva: “maconha é natural, não pode fazer mal”. Ô broder, me perdoa, mas “comigo ninguém pode” também é naturalíssima, nem por isso a gente sai mastigando, né? Eu pelo menos evito.

Aliás, evito fumar no geral (olha aqui o Fábio de um passado recente dizendo que não fuma), simplesmente porque fumar não faz bem. Não interessa o quê, fumar não faz bem. E aí vamos para o segundo vacilo: fingir que maconha não faz mal. Certa vez vi, numa reportagem com uma galera da TORCIDA RASTA do Palmeiras (sim), um líder sendo bem sincero ao dizer que só se arrepende de ter começado a fumar cedo. Ele se justifica dizendo que, segundo um estudo (não vou procurar fonte, aqui vocês terão que confiar em mim, que confiei no cara, que confiou no tal estudo), fumar muita maconha antes da formação total do cérebro (até uns 23 anos, mais ou menos) pode causar algumas pequenas sequelas, o que seria a causa de esquecimentos constantes e lentidão do pensamento. Além claro, dos males causados simplesmente por COMER FUMAÇA, que qualquer cigarro pode causar. Estamos falando de problemas respiratórios, câncer de pulmão, de boca, etc.

Então não adianta fingir que a maconha é a melhor coisa do mundo, porque não é. Quando você finge que não, a causa perde pontos com o tio do bar do seu pai, por exemplo.

Cientes dos males e sem esconder, podemos enfim ponderar sobre uma realidade que para muitas pessoas é intangível: maconha não mata ninguém. NINGUÉM. Pôxa, alguém conhece algum maldito que morreu de maconha? Meu deus do céu, isso não existe. É MUITO DIFÍCIL ter uma overdose de maconha. Sério, olha esse trecho aqui: “de acordo com os cálculos do relatório, para se ter uma overdose de maconha, o consumo deve ser de cerca de 680 quilos em, no máximo, 15 minutos. Isso dá entre 20 mil e 40 mil baseados”.

Torcedores do Vasco flagrados por câmera do canal SporTV/Premiere durante jogo em 2015. Um, vestindo um agasalho do clube e ora fervorosamente, com as mãos unidas e olhos fechados. Atrás dele, mais ao canto da tela, um companheiro de torcida 'bola' um 'baseado' lambendo a seda pra finalizá-lo.

Recebo com profunda tristeza a notícia da sua morte (Vasco).

Você sabe que é mais fácil morrer de bêbado do que de maconhado. Eu sei que você sabe. Só que não foi assim que o resto do mundo foi ensinado. Obs.: mais uma vez, não seja desonesto. Não é correto dirigir depois de fumar maconha, nem se ela for legalizada.

Mas bem, vamos tentar voltar. O tio ainda te acha um boçal. Te acha porque ele acha que maconha mata, e mata sim.

“Mas Fábio, você disse que não!!!”

Disse sim, você não está louco (está sim). Mas é que ela mata de outro jeito: a polícia do Brasil é a polícia que mais mata no mundo. E pior: é também a que mais morre, seu tio reacionário não está errado quando rebate. Claro que não é SÓ por isso, mas chamar de guerra o combate às drogas não é nenhum exagero. A guerra às drogas (ou aos pobres, ou aos negros, como quiser) é literalmente uma guerra e é uma dos fatores mais decisivos no bolo da violência. Lembram da questão de saúde? Maconha não mata. Olha que situação imbecil: uma quantidade absurda de gente morre graças ao combate… a uma droga… que não mata…

Isso acontece porque tem gente graúda interessada nisso. É só tentar imaginar como diabos uma arma militar caríssima chegou na mão de um moleque de chinelo bem no meio do Rio de Janeiro que não tem nem ensino fundamental. Não foi fácil, nem barato meter ela ali.

Mas bem, quanto à falta de tato, a dificuldade que alguns dos que defendem o uso recreativo da FAMIGERADA geralmente é com a didática. Trazer uma informação sem contexto, como citei acima, nem sempre é desonestidade, às vezes é só descuido. Porém, é extremamente destrutivo usar argumentos baixos ou inválidos quando o “lado de lá” está sempre muito bem acompanhado de formadores de opinião caríssimos e cheios de credibilidade.

Afinal, depois de tantos rodeios, qual foi o objetivo desse texto todo? A torcida do Santos te explica:

Na varanda de um bar, cadeiras e mesas dobráveis de madeira. Pendurada no toldo, uma faixa branca traz protesto com os dizeres 'Muito faz quem não estorva!! Fora Adilson!!'. À direita da frase, ainda dentro da faixa, o escudo do Santos Futebol Clube.

Um de meus lemas, estampado numa faixa de protesto da torcida do Santos.

Não tem nada a ver com a torcida, mas com a frase da faixa. Tem gente que vem quente pra somar no debate, mas não dá quinze minutos tá chamando o outro de reacionário. Quando você usa argumentos ruins, desonestos ou muito fora de contexto, você está mais atrapalhando do que ajudando.

Lembre-se que nem todo mundo tem o mesmo conhecimento de causa que você. Aquele tio do bar onde seu pai toma umas não pesquisa sobre o assunto, até porque, sendo sincero: ele não dá a mínima pra opinião de maconheiro.

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